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domingo, outubro 28, 2007

Ética e Futebol por Mauro Knijnik

Nosso Colaborador
ÉTICA E FUTEBOL Mauro Knijnik
A crise ética do país não tem fronteiras. Avança sobre as instituições, corrói a vida política, consagra a impunidade. Nos últimos meses, ficamos mais uma vez sobressaltados com as revelações sobre negócios escusos envolvendo um clube paulista de futebol, com repercussões que colocam em xeque o resultado do Brasileiro de 2005. A falência moral do país não poupa - e não é de hoje - a maior das nossas paixões esportivas.
Em meio à confusão moral, o homem acaba não percebendo que a falta de ética é uma derrota que ele impõe a si mesmo. Há um clichê a respeito do futebol que o caracteriza como 'uma caixinha de surpresas', referência popular ao fato de que dentro do campo tudo pode acontecer. Mas há coisas na vida das quais não podemos esperar surpresas. Precisamos de um mínimo de previsibilidade moral nas nossas relações, e ela se justifica pela aplicação mínima de regras de conduta universalmente aceitas.
Não podemos encarar o futebol como um aspecto secundário da vida, pelo volume dos negócios ou pela intensidade das paixões sinceras que movimenta. Tanto quanto cobramos de nossos representantes, precisamos exigir decência de quem se dedica ao esporte. Da mesma forma como na vida social ou no amor, no nosso dia-a-dia, dependemos de regras de convivência que funcionem como linhas de fronteira entre o certo e o errado e entre o bem e o mal.
Confesso que me incomoda a expressão 'isso é coisa do futebol' quando se pretende justificar atitudes antiéticas ou até mesmo ilegais no âmbito futebolístico. É triste ver um conceito torpe prevalecer em uma atividade que mistura tão bem tradição e paixão. Ser permissivo em relação ao futebol é socialmente aceitar que tudo pode acontecer nesse ambiente agitado por transações milionárias, exposição na mídia e vaidade. Como se traíssemos a opinião pública, escondêssemo-nos dela. Não podemos aceitar que os números das transações não fechem, que sempre exista algo de podre nos bastidores. Enfim, não podemos aceitar 'coisas do futebol'.
É preciso resgatar a ética como um instrumento de valorização da condição humana. Ao assumir a presidência do Conselho Deliberativo do Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense, procurei levantar a discussão do tema por meio de iniciativa inédita no âmbito esportivo: a criação de um Código de Ética. Objetivo, contém regras que não fogem do bom senso. Nesse mesmo nível de entendimento, ou seja, no nível da ética e do bom senso, é que acreditamos que devam ser apuradas todas as irregularidades que ocorrem no país.
Nossa expectativa é que esse tipo de investigação sirva para que as 'coisas de futebol' sejam apenas a tradição, a torcida e, igualmente, a ética. O Brasil precisa de bons exemplos e o futebol, como paixão nacional, precisa estar na linha de frente desta batalha.
presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio
Correio do Povo Porto Alegre - RS - Brasil 26/10/2007